Depois de surpreender com Vera Cruz (2021), Edu Falaschi retornou em 2023 com Eldorado, segundo capítulo da trilogia conceitual iniciada em sua carreira solo. Enquanto o disco anterior explorava as grandes navegações e a chegada dos portugueses ao Brasil, Eldorado transporta o ouvinte para as lendas e civilizações pré-colombianas da América Central, mantendo a proposta cinematográfica que se tornou uma das principais marcas desta fase do vocalista.
A fórmula vencedora foi mantida. Edu novamente reúne o mesmo time responsável por Vera Cruz: Aquiles Priester na bateria, Fabio Laguna nos teclados, Raphael Dafras no baixo e a dupla de guitarristas Diogo Mafra e Roberto Barros. A produção segue nas mãos de Edu e Roberto Barros, enquanto Dennis Ward retorna para entregar uma mixagem cristalina, poderosa e equilibrada. Entre os convidados especiais, o grande destaque fica por conta de José Andrea, lendário vocalista do Mägo de Oz, que adiciona ainda mais autenticidade ao clima latino presente em parte do álbum.
A curta introdução "Quetzalcóatl" cumpre perfeitamente seu papel, criando uma atmosfera digna de uma superprodução cinematográfica antes de desembocar em "Señores Del Mar (Wield the Sword)", uma das faixas mais marcantes do trabalho. A influência da música latina aparece logo nos primeiros compassos e ganha força com as passagens em espanhol interpretadas por José Andrea. O resultado é uma música extremamente cativante, épica e diferente dentro da discografia de Edu.
"Sacrifice" devolve o álbum ao território clássico do Power Metal, carregando todas as características que fizeram de Edu Falaschi um dos principais nomes do estilo: refrão forte, melodias marcantes e linhas vocais impecáveis. Em seguida surge "Empty Shell", a primeira balada do disco. Apesar de flertar com um sentimentalismo um pouco exagerado, a composição funciona dentro da proposta e não compromete o andamento do álbum.
A velocidade volta com força em "Tenochtitlán", um Power Metal acelerado que remete diretamente à energia apresentada em Vera Cruz. Já a extensa faixa-título, "Eldorado", representa um dos grandes momentos do álbum. Misturando Power e Progressive Metal com mudanças de andamento, passagens complexas e excelente dinâmica, a música mostra maturidade na composição e entrega um dos pontos mais altos do trabalho.
Outro momento de destaque é "Q'EQU'M", uma belíssima peça atmosférica conduzida pela cantora guatemalteca Sara Curruchich. Muito mais do que uma simples interlude, a faixa prepara o terreno para "Reign of Bones", que retorna ao Power Metal tradicional. Embora siga uma fórmula relativamente previsível e soe um tanto genérica em alguns momentos, ainda assim entrega tudo aquilo que o fã do gênero espera.
A segunda metade do álbum reserva "Suddenly", outra balada bastante inspirada. Aqui Edu revisita a fórmula de suas melhores canções lentas, construindo uma composição emocional e eficiente, que ainda ganhou uma versão em espanhol intitulada "Ven a Mi", incluída como faixa bônus na edição em CD.
Na reta final, "Wings of Light" chega com uma introdução grandiosa antes de desenvolver um Power Metal equilibrado, recheado de ótimos riffs e solos inspirados da dupla Diogo Mafra e Roberto Barros. O encerramento fica por conta de "In Sorrow", uma emocionante balada cuja introdução remete imediatamente a "Rainha do Luar", presente em Vera Cruz. O grande destaque aqui é a interpretação extremamente madura de Edu Falaschi, acompanhada pela delicada participação de Junior Carelli ao piano.
O maior mérito de Eldorado talvez esteja justamente onde seu antecessor dividiu opiniões. Se Vera Cruz frequentemente impressionava pelo excesso de virtuosismo e pela necessidade constante de demonstrar técnica, aqui tudo parece mais natural. As composições respiram melhor, os músicos tocam em função das canções e o resultado soa muito mais orgânico e coeso. A técnica continua presente — afinal, trata-se de músicos de altíssimo nível —, mas nunca ofusca a música.
Sem abrir mão da grandiosidade que caracteriza esta fase de sua carreira, Edu Falaschi entrega um álbum mais equilibrado, acessível e consistente. Eldorado representa uma evolução natural dentro da trilogia e certamente agradará não apenas aos fãs de sua carreira solo, mas também aos admiradores dos grandes momentos do Angra. Para aqueles que consideraram Vera Cruz excessivamente técnico, este trabalho mostra que ainda é possível unir virtuosismo, emoção e excelentes composições sem que um elemento sobreponha o outro.
Nota: 9,0/10



